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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Adineva

Sentia-se inusitada pelo nome dado por seu pai: Adineva. Nome dado graças à carreira de engenheiro civil de uma pequena cidade às margens do esquecimento, como não poderia nomeá-la como Viela, Travessa ou coisa similar, conteve-se em usar avenida como protótipo invertido.
Família mais esnobe do que nobre, religiosa por demais, quase intolerantes ao extremo, sua diversão no fim da tarde limitava-se a ler com veemência os livretos religiosos, a bíblia e escutar as pregações do pastor pelo rádio de válvulas imensas, além de sorver a água purificada pelas orações, acomodada no copo que ficava em cima do rádio, e as beatificações órficas, um ritual contínuo.
Quando Adineva, filha única, ficara órfã, aos 37 anos, por causa de um acidente envolvendo uma carroça, o carro de seus pais e um carro funeral, pensara que não suportaria. O que fizera: agarrara-se mais às leituras religiosas, ao luto, à mesquinhez de uma vida solitária. A vizinhança a chamava de Adinegra, pois nunca deixava de sair coberta de negro e seus livros todos. Os adultos tinham medo, as crianças deboche.
Adineva nunca se incomodava com as pessoas, pois a fé e suas fervorosas orações lhe consolavam, mesmo diante do medo de nunca casar. Fora em maio dos seus 39 anos que começara a adoecer, ou a perceber que piorava gradativamente. Tonturas, enjoos, queimações no estômago, pensou: estou grávida. Afinal, era tão imaculada quanto a mãe de Cristo que Deus não poderia ofertar melhor dádiva do que conceber um filho por obra do Espírito. Suas regras haviam parado, o que corroborara suas intuições.
Nesse período de gestação pouco saía de casa, sua barriga aumentara, os enjoos também. Estava feliz por ser mãe, sem corromper sua carne. Pensara em mandar uma carta para o pastor explicando o caso, tudo graças à Deus. Aumentaram as dores. Finalmente, depois de quatro meses fora ao médico, que a escutou, auscultou, examinou e concluiu: não há gravidez, mas gravidade. Seu fígado estava com dimensões titânicas, estava doente, porém, não sabia a causa, nem a devota.
Fora para casa, chorou, orou, devorou seus livros todos e dormiu. Na semana seguinte o médico diria o resultado dos exames: contaminação. Mas como? Indagava. A senhora ainda tem os mesmos hábitos de seus pais? Inquiriu o médico. Consentiu com a cabeça. Então, provavelmente a água de que bebe esteja contaminada por causa da irradiação daquele velho rádio.

Um exame da água corroborou a teoria do médico. Enfurecida, raivosa, descrente e decepcionada, destruiu o aparelho à machadada e o queimou com toda literatura que dispunha, cortou o longo cabelo, subiu num salto e transformou a casa num bordel literário: lia-se o que se quisesse, contanto que desse prazer...

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